“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Resgate em Inti Machay, nos Andes peruanos

Um acidente ocorrido na quinta-feira, dia 18 de Setembro de 2014 manteve o espeleólogo Cecilio Lopez 12 dias preso em uma caverna na região de Inti Machay, nos Andes peruanos. O incidente causou a fratura de duas vértebras do espeleólogo a cerca de 400m de profundidade vertical na gruta. O isolamento da região, as difíceis condições de acesso e comunicação e a demora na chegada de espeleólogos especializados fizeram dos trabalhos de resgate um desafio custoso, urgente e delicado.

A operação de resgate foi iniciada imediatamente após o incidente pelo grupo Andino de Espeleologia. Espeleólogos peruanos e franceses do GSBM (Grupo de Espeleologia Bagnols Marcoule) estavam em uma região próxima e em pouco tempo foram os primeiros reforços a se juntar a equipe de resgatistas na caverna. Uma forte campanha em busca de recursos e voluntários se iniciou nas redes sociais e os dias seguintes foram marcados por grandes mobilizações. Enquanto equipes de resgate da Espanha embarcavam para o Peru, outros países também se organizaram para oferecer ajuda. Uma equipe de socorristas mexicanos e uma de brasileiros arrumaram as malas e de prontidão aguardavam um pedido oficial de ajuda, bem como as autorizações das autoridades locais para adentrar na região do acidente.

Autoridades do Peru, da França e do Brasil também foram acionadas em busca de apoio em logística e mantimentos. A demora na obtenção de autorizações, de apoio dos governos e de pedido oficial de ajuda do espeleoresgate da Espanha fez com que espeleólgos brasileiros e mexicanos não conseguissem embarcar, mas não impediu que espanhóis se juntassem cada vez em maior número ao grupo de resgate.

A chegada de mais 3 equipes da Espanha fez com que a coordenação do resgate fosse transferida do Peru para a Espanha e os trabalhos começassem a ser realizados em turnos, com mais equipamentos e recursos. Ao todo, mais de 50 espeleólogos especialistas em resgate em cavernas verticais estiveram presente na região do acidente dividindo tarefas de logística, preparação de vias de saída com maca e transporte de Cecílio. Durante todos os dias, um médico acompanhou o espeleólogo acidentado monitorando seu estado de saúde e ministrando medicamento na medida do possível.

No dia 29 de Setembro, a -150m de profundidade, Cecílio escreveu uma carta à família, amigos, socorristas e comunidade espeleológica. A carta envia mensagens de agradecimento e esperança, prevendo uma saída breve.

Hoje, dia 30 de Setembro recebemos a notícia de que Cecílio está fora da caverna e a caminho de Chachapoyas. Uma vez em centro urbano ele poderá receber cuidados médicos mais estruturados e encaminhado de volta para a Espanha.


Informações detalhadas e acompanhamento do dia-a-dia do resgate podem ser acompanhadas no blog EspeleoresgateBrasil.


As fotos abaixo tem como fonte o site da Federação Madrilenha de Espeleologia, com informações sobre o resgate 

Cecilio Lopez
Uma das equipes espanholas de resgate a caminho da caverna.

Croquis da caverna de Intimachay com anotações sobre o resgate.




segunda-feira, 21 de julho de 2014

Mapeamento da Gruta da Tapagem (Caverna do Diabo)

Nos dias 19 e 20 de julho de 2014 estivemos na Gruta da Tapagem (Caverna do Diabo) para mais um campo da pesquisa sobre uso público de cavernas, desenvolvida na FAUUSP.

Foi realizado o mapeamento de detalhe da parte turística e galerias adjacentes, com a colaboração dos Grupos Bambui e Meandros. 

Participaram: Andrea Kern, Carlos Grohmann (Guano), Christian Moraes, Daniel Menin, Leda Zogbi, Luciana Fackoury, Magna Pontes, Marcos Silverio e Victória Dalla Hart.

Fotos: Carlos Grohmann, Magna Pontes e Marcos Silverio

Equipe de topografia

Mapas da Caverna Foto Magna Pontes

Névoa no conduto do rio foto Magna Pontes



Foto Carlos Grohmann

Foto Magna Pontes

Topografia com estação total

Mapeamento


Equipe

Frio

 Croquis









quinta-feira, 17 de julho de 2014

Denúncia de espeleólogos e ação rápida do governo protege caverna de destruição

Uma denúncia realizada por espeleólogos no dia 16 de Abril de 2014 resultou em uma rápida ação dos órgãos ambientais de Santa Catarina em defesa da Gruta do Cinema, localizada na região de Botuverá e Vidal Ramos, Centro Leste de Santa Catarina.

No início de Abril, o grupo de espeleólgos esteve na região para realizar o remapeamento da caverna, topografada inicialmente na década de 80 pelo grupo de espeleologia  GEEP-Açungui do Paraná. Com desenvolvimento estimado em 250m, e litologia em mármore, a Gruta do Cinema é a segunda maior caverna registrada no Estado de Santa Catarina - atrás apenas da Gruta de Botuverá.

Mas ao chegar no local da gruta, os espeleólogos se depararam com um informações de que uma lavra havia se estabelecido no local e a caverna estava sendo destruída.
  
“Para nossa surpresa, ao chegarmos à região, fomos informados que as entradas da caverna haviam sido soterradas, e que uma mineradora local já tinha iniciado a destruição do maciço”, conta um dos espeleólogos. 

Ao chegar até a localização da caverna, o grupo pôde certificar-se de que realmente as duas entradas da caverna estavam completamente obstruídas por terra e entulho, além de outros impactos importantes: 

“Verificamos que havia uma lavra iniciada em cima da caverna. Em toda a volta do maciço observamos perfurações realizadas para a colocação de dinamite”.

Ao se deparar com o cenário de destruição, o grupo documentou o encontrado e encaminhou denúncia ao FATMA, Fundação do Meio Ambiente do Estado de Santa Catarina, com cópia para o Ministério Público de Santa Catarina, para o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas - CECAV/ICMBio e para a Superintendência do Ibama em Santa Catarina.

Menos de 2 meses depois, foi emitido o Laudo de Vistoria  N. 024/2014 da Superintendência do Ibama de Santa Catarina, com uma explicação detalhada da importância do local e dos impactos ocasionados pela Calwer Mineração Ltda. A mineradora foi autuada em R$189.000,00 (R$ 180.000,00 por deteriorar a caverna,  R$ 4.000 por destruir abrigo de animais silvestres, R$ 5.000,00 por danificar área de Preservação Permanente (150 m2). Uma área de 2 hectares no entorno da caverna foi embargada e para terminar, o órgão sugere como medida imediata a reabertura das entradas originais da caverna e recuperação da área degradada.

A legislação brasileira* prevê intervenções físicas em cavernas mediante estudos prévios de relevância e impacto ambiental realizados por especialistas de diferentes áreas relacionadas. Espeleometria, biologia, geologia, paleontologia, arqueologia, entre outras, são ciências que ajudam órgãos ambientais a emitirem licença de uso dos recursos naturais em regiões com incidência de grutas. Ignorar ou negligenciar estes estudos – como no caso da mineradora em questão – coloca em risco o empreendimento, além de sujeitar a empresa a embargos e multas e de exultar em destruição de bens naturais incalculáveis.

A ação conjunta e sincronizada dos órgãos ambientais foi exemplar, tomando rápidas medidas para mitigar e reverter a destruição da caverna. A comunidade espeleológica brasileira agradece o comprometimento e eficácia do FATMA, IBAMA-SC e CECAV-ICMBio e felicita os espeleólogos envolvidos nesta ação.


* Decreto 6640/08, regulamentado pela Instrução Normativa MMA 02/2009







quarta-feira, 25 de junho de 2014

Caverna do Agenor: retorno cheio de histórias e lembranças

Retornar a Caverna do Agenor depois de oito anos da descoberta foi uma grande emoção. Uma máquina do tempo que nos fez reviver as sensações vividas nos trabalhos de exploração e topografia.

Esta viagem tinha como objetivos a documentação fotográfica de áreas visitadas somente na ocasião da topografia, quando não foi possível se dedicar as fotos. Tínhamos também a intenção de voltar em regiões remotas da caverna, exploradas uma só vez e sem muito empenho. A distância, as dificuldades técnicas e a vontade de fazer tudo com calma nos levou a organizar um bivuaque, entrando na caverna Sábado de manhã e saindo no Domingo a tarde.

A atividade contou com a participação de 4 espeleólogos, dos quais 3 fizeram parte da história de exploração da gruta. Foi emocionante chegar nos lugares mais distantes e encontrar a caverna exatamente como estava em nossa memória. Cada passagem, cada escalada, cada rappel. Tudo repleto de lembranças e história.

Em uma região central, deixamos o mapa e uma carta a espeleólogos do futuro.

A Caverna do Agenor foi descoberta durante o projeto Paçoca e Arredores, que mapeou grutas importantes da região do Lajeado (PETAR), sobre o aquífero cárstico do Córrego Fundo. Uma equipe chegou na entrada da gruta quando procurava um acesso alternativo para a caverna Paçoca. Logo na primeira exploração, os espeleólogos se surpreenderam com o tamanho e diversidade da caverna. O nome é uma homenagem ao Sr Agenor, dono e morador da terra onde a gruta se encontra. A caverna teve seu mapa produzido entre 2006 e 2008. Com cerca de 4km de linha de trena e uma morfologia de condutos e salas fósseis em diferentes níveis, é uma  importante caverna da região. Todo o material produzidos durante as atividades de exploração encontra-se em documento entregue aos órgãos competentes. Os relatos e fotos das atividades, estão publicados aqui neste mesmo site.



(Fotos: Daniel Menin, Marcos Silverio e Carlos Grohmann)