“E impelido pela minha ávida vontade, imaginando poder contemplar a grande abundância de formas várias e estranhas criadas pela artificiosa natureza, enredado pelos sombrios rochedos cheguei à entrada de uma grande caverna, diante da qual permaneci tão estupefato quanto ignorante dessas coisas. Com as costas curvadas em arco, a mão cansada e firme sobre o joelho, procurei, com a mão direita, fazer sombra aos olhos comprimidos, curvando-me cá e lá, para ver se conseguia discernir alguma coisa lá dentro, o que me era impedido pela grande escuridão ali reinante. Assim permanecendo, subitamente brotaram em mim duas coisas: medo e desejo; medo da ameaçadora e escura caverna, desejo de poder contemplar lá dentro algo que fosse miraculoso"

Leonardo Da Vinci

domingo, 19 de julho de 2015

Expedição Bambuí e La Venta - Aracá 2015




Entre os dias 29 de Junho e 14 de Julho estivemos na Serra do Aracá, no norte do estado do Amazonas.

A expedição foi organizada pelo Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas em parceria com o grupo italiano LA VENTA Esplorazioni Geografiche.

Localizada próximo da divisa entre Brasil e Venezuela, a leste do Pico da Neblina, Serra do Aracá ganhou notoriedade devido a descoberta da mais alta queda d'água do Brasil, a Cachoeira do Eldorado com seus 353 metros de queda e a criação do Parque Estadual da Serra do Aracá, em 1990.

A serra é composta, principalmente, por uma montanha em forma de mesa, também chamada de Tepuy. Um maciço de Quartzito que pode atingir cerca de 1400 metros de elevação em alguns pontos mais altos. Outras cadeias de montanhas próximas compõem um conjunto de serras complementares, mas apenas o Aracá tem a morfologia característica dos Tepuys.

A distância das áreas povoadas e a ausência de vias de acesso fazem da Serra do Aracá um dos lugares mais remotos do Brasil. A logística para acessar a montanha a partir de Manaus exige no mínimo 3 dias de barcos e uma caminhada que, com sorte, pode ser realizada em 1 dia. Além da distância, os rios que acessam a montanha são navegáveis apenas nos meses de cheia, ficando intransitáveis boa parte do ano. Uma vez na floresta, não há trilhas bem demarcadas o que pode tornar a subida mais difícil e demorada. Além disso, os limites da serra compreendem paredões verticais exigindo empenho para encontrar vias mais fáceis de subida.

A expedição contou com 5 espeleólogos brasileiros e 4 italianos. Estavam presentes especialistas em exploração, topografia, documentação fotográfica e geologia. O objetivo foi realizar um levantamento espeleológico na parte alta da montanha, com mapeamento das cavernas encontradas durante a viagem e uma topografia detalhada do abismo Guy Collet, conhecido como a mais profunda caverna do Brasil. A equipe permaneceu 5 dias no topo da montanha, em um total de 15 dias de expedição.


Além dos levantamentos topográficos, a expedição produziu imagens fotográficas, vídeos e relatórios de campo que serão divulgados a medida em que forem organizados e trabalhados.




(Fotos: Daniel Menin e Carlos Grohmann (Guano))

Barco-base, utilizado para navegação nos rios Negro e Aracá
A aproximação da serra é realizada durante um dia de navegação em rios e igarapés. Áreas navegáveis apenas em barcos pequenos, como voadeira e rabeta.
Frequentes imprevistos como árvores caídas e bancos de areia exigem paciência e empenho das equipes.

Devido a alta vegetação, a Serra do Aracá é avistada em raros momentos, como nos trechos finais de igarapé. Seus paredões verticais e superfície em forma de mesa fazem do Aracá um Tepuy, como o Monte Roraima e outras montanhas da Venezuela.
Acampamento principal, no alto da serra. A umidade e o clima instável dificulta a estadia dos pesquisadores.
Equipe de reconhecimento - Rio Negro

Um dos poços do Abismo Guy Collet fotografado durante trabalhos de equipagem do abismo.
A rocha de Quartzito apresenta desafios a parte para encontrar pontos seguros de fixação da corda
Descida do abismo Guy Collet durante topografia

Croquis durante exploração e topografia 

Equipe topografando uma caverna encontradas no alto da serra. 
Foram deslocados para o alto da serra cerca de 500kg de equipamentos.


Vista da floresta amazônica a partir da Serra do Aracá.

Vista dos paredões verticais e do canyon da cachoeira do Eldorado. A frente, a cachoeira do Desabamento.

Os paredões verticais e íngremes escarpas fazem da Serra do Aracá um lugar de difícil acesso e exploração.
Vista da Cachoeira do Eldorado, conhecida como a maior cachoeira do Brasil, com seus 353m de queda.
Amanhecer no barco-base para início do retorno.

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Você gosta de fotografias?

O site TerraSub nasceu há cerca de sete anos com a motivação tornar público relatórios de atividades de exploração e documentação de cavernas. Na época, essa foi uma ação em resposta a uma prática comum na espeleologia, onde os trabalhos realizados muitas vezes ficavam arquivados em gavetas. Sem acesso publico, acabavam perdidos com o tempo.

A partir de então, diversas atividades de campo foram sendo publicadas também neste site. Descobertas, mapas, relatos, fotografias e notícias sobre o tema ganharam espaço livre para leitura de qualquer pessoa. O histórico contempla relatos desde 2006 e pode ser acessado através de uma simples busca no acervo de assuntos – na barra lateral – ou em pesquisa direcionada através de caixa de texto.

Mas sabemos que além dos relatos, o TerraSub também agrupa um bom acervo fotográfico de cavernas. Entretanto, não é a ferramenta mais adequada para publicação de imagens devido as dificuldades de pesquisa e visualização e navegação.

Pensando nisto, acabei de colocar no ar um portfolio defotografias. O tema principal são as imagens de cavernas, mas também encontramos fotos de assuntos relacionados como viagens, pessoas, paisagens e natureza em geral. A maioria das imagens encontram-se também aqui no TerraSub acompanhadas de seus respectivos relatos, mas no portfolio fica muito mais fácil e gostoso de navegar.

Boa viagem!

Daniel


quarta-feira, 1 de abril de 2015

Defesa de dissertação de mestrado na FAUUSP: Atuação da arquitetura no uso público de cavernas



Apresentei no dia 24.02.2015 a dissertação de mestrado em Projeto de Arquitetura: Atuação da arquitetura no uso público de cavernas. Conceitos, métodos e estratégias para ocupação. Caverna do Diabo, SP.


A defesa ocorreu na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e contou com a banca examinadora composta pela orientadora arquiteta Anália Amorim (FAUUSP), pelo geólogo Paulo Boggiani (IGc-USP) e pela arquiteta Helena Ayoub (FAUUSP).
A pesquisa une as minhas trajetórias na espeleologia e na arquitetura e busca contribuir com a discussão do uso público de cavernas com a sua conservação. 

O estudo propõe o desenvolvimento de uma base conceitual e metodológica para subsidiar estratégias para atuação da arquitetura no uso público de cavernas, baseado na pesquisa em projeto de arquitetura e tendo como estudo de caso a Caverna do Diabo e São Paulo.
A dissertação pode ser acessada nos links abaixo.

https://drive.google.com/file/d/0B-lrq1MYDLiEYThzRzFuSU15MmM/view?usp=sharing

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Expedição Toca da Boa Vista - Janeiro de 2015

Em Janeiro de 2015 estivemos mais uma vez nas entranhas da maior caverna do Brasil: a Toca da Boa Vista.

A expedição, organizada pelo Grupo Bambuí de Pesquisas Expeleologicas, contou com 19 equipes, que em 9 dias topografou cerca de 4,3km de novas galerias. Além dos abismos e longínquos condutos do "Fim de Mundo" (área mais remota da caverna), também foram mapeadas conexões e condutos em aberto em diversos setores do mapa. 

O tamanho da TBV está crescendo e suas dificuldades também: As regiões com maior potencial de exploração na gruta encontram-se no "Fim de Mundo", a cerca de 2 a 3 horas de caminhada da entrada mais próxima. O calor sufocante (média de 33 graus) e a ausência de água pelo caminho faz com que os espeleólogos consumam de 3 a 6 Litros por pessoa por dia, exigindo uma verdadeira logística na administração da água carregada para dentro da gruta. Outro agravante é a morfologia: Em muitos condutos do "Fim de Mundo", as continuações se dão por níveis inferiores acessados através de abismos de 20 a 30m, o que exige o transporte de equipamentos extras e cuidado extremo.

Além da Boa Vista, as equipes também estiveram em outras cavernas da região - como Toca da Barriguda - onde foram delimitadas áreas de proteção e caminhamento a fim de proteger partes frágeis das cavernas.

Há mais de 20 anos o grupo Bambuí mantém trabalhos de exploração e mapeamento da Caverna Toca da Boa Vista, bem como outras cavidades da região. Com esta expedição, a TBV passa a ter 111km, aumentando sua distância entre outras cavernas Brasileiras.



                                            (Fotos: Daniel Menin - Toca da Boa Vista e Toca da Barriguda, 2015)













quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Fotografia da Gruta do Agenor é premiada em concurso do CNPq



A fotografia acima, da Sala de Verne na Caverna do Agenor em Iporanga ficou em terceiro lugar no IV Prêmio de Fotografia - Ciência & Arte organizado pelo CNPq na categoria Imagens produzidas por câmeras fotográficas: ambiente silvestre e antrópico.

A foto foi tirada durante uma expedição fotográfica para a caverna oito anos após a conclusão da sua topografia. O relato da viagem pode ser visto aqui: http://terrasubespeleo.blogspot.com.br/2014/06/caverna-do-agenor-retorno-cheio-de.html

Link para o site do prêmio e as demais premiadas: http://www.premiofotografia.cnpq.br/

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

In the house of gods, as mais antigas cavernas da Terra


O mercado da aventura geralmente produz filmes com personagens fictícios atuando em ambientes desafiadores como palco para histórias fantasiosas. Muitas vezes estes ambientes sequer existem e os personagens são atores pouco o quase nada familiarizados com os fins científicos ou as prática das atividades usadas na fantasia.

Um projeto em andamento promete exatamente o contrário: Criar um filme documentário sobre a exploração de cavernas em um dos mais remotos lugares do planeta: os Tepuys da Amazônia venezuelana. Equipes de espeleólogos e cameramans desde 2010 estão envolvidos em expedições nas montanhas de quartzito em meio à floresta. Desafiando a as difíceis condições de acesso eles captaram imagens em alta definição dos trabalhos científicos nas cavernas e fora delas. Filmagens aéreas, paisagens, escaladas, passagens estreitas, descidas em abismos profundos, momentos de perigo, tensão e suspense. Emoções reais misturadas a uma paisagem assombrosa e deslumbrante das montanhas e cavernas mais antigas do mundo.




O material está a ponto para ser editado, mas ainda depende de fundos para custear o documentário. A organização do projeto, coordenada pelo italiano Francesco Sauro, geólogo pesquisador de Pádova, criou um financiamento coletivo através do site INDIEGO (crowdfunding).


Mais informações em L’Abisso.